segunda-feira, 24 de março de 2014

Alma




Alma é um romance que nasce do enlace da oralidade com a fabulação, em trânsitos de linguagem que unem memória, apropriação, experiência e inventividade. Histórias, causos, lembranças compartilhadas pelos avós, pais e tios da autora se fazem ponto de partida para a construção do cenário cotidiano de outros tempos, pano de fundo da trama, bem como para a composição das personagens. Alma se apresenta ao leitor como um convite à curiosidade, à adivinhação, à tentativa de distinção entre memória e ficção em meio às páginas do livro.

Editoras, atenção: carinho com meu original, que está chegando aí, pedindo espaço e atenção ;)

domingo, 19 de janeiro de 2014

Carta aberta aos médicos que salvaram a vida da minha mãe



Foi num dia de férias na praia, há dezessete anos, que ela sentiu aquela pontada, aquela dor, pela primeira vez. Só tinha na bolsa um remédio leve, que tirava febre dos filhos ainda crianças. Tivesse o primeiro médico, que pediu aquele primeiro exame, sabido ler os resultados, talvez a vida dela pudesse ter sido diferente. Afinal, em meio àqueles resultados coloridos – é até bonito o exame – era possível notar, mesmo por olhos leigos, uma mancha na altura do quadril, do lado direito. Mas o que era aquilo, o que significava aquela mancha no exame, circulada pela caneta do médico? Ele não soube dizer. Nos dezessete anos seguintes (reforço: dezessete. Anos.) ela passou por muitos consultórios e diagnósticos. Passou também por momentos de dor que eu não consigo calcular, mas que a fizeram transforma-se em alguém que chegou a tomar onze diferentes medicamentos em um só dia, alguém que não conseguia subir mais que um lance de escadas sem se sentir completamente esgotada, que não podia mais fazer uma caminhada ao fim do dia, que chorava ao sentir as pernas “serem arrancadas por um tubarão”, que passou todas as noites dos últimos seis meses em uma cadeira, porque deitar já era doloroso demais. Alguém cujo maior sonho é ser avó e que já dizia não mais querer netos, pois não aguentaria brincar com eles. Anos de dor que arrancavam de seus olhos incontáveis lágrimas e de seu coração a esperança. Anos de visitas a médicos que não sabiam o que ela tinha – dentre eles, alguns se esforçaram, outros lhe deram esperanças; alguns se enganaram, outros tentaram convencê-la de que precisava mesmo era de ajuda psiquiátrica, o problema estava era em sua cabeça. Não foram médicos os únicos a fazerem tal julgamento. Foram incontáveis as vezes em que a vi chorando, desejando que se abrisse um machucado enorme, ou que lhe arroxeasse a perna, ou coisa outra qualquer que fizesse acreditar em sua dor. Tentei sempre dizer que esquecesse, deixasse de lado. Nós acreditávamos. Mas a desconfiança a incomodava, machucava. Morar em outra cidade me fazia às vezes, por alguns dias, esquecer da dor. Ela disfarçava. Nos falamos todos os dias, mas em muitos ela me enganava, se dizia bem. Existiram, sim, dias – nestes dezessete anos – em que ela não recebeu a visita da dor mais lancinante, mas quando vinha, ela assuntava por outros lados, desviava minha atenção. Soube disso apenas quando fui, de férias, passar o mês com ela e meu pai. Fazendo uma média, era como se, a cada dois dias, a dor a tomasse por inteiro. Passava não só a noite, mas o dia todo em sua cadeira. Sem conter as lágrimas. Eu, impotente como nunca antes, nada mais fazia do que ficar ao seu lado, conversando, segurando sua mão, tentado, de alguma forma, fazer com que se esquecesse – como se fosse possível desviar o pensamento de alguém que é consumido pela dor. No último ano, 2013, a dor parecia ainda mais intensa. Ela algumas vezes me disse que sua validade estava acabando. Foi nessa época que a Dra. Fernanda*, atenciosa e interessada, instigada a encontrar para minha mãe se não a cura ao menos um alívio, ouviu sua queixa: a dor se espalhava pelo corpo, mas o lado direito do quadril parecia ser o ponto mais crítico... por que médico nenhum dava atenção a isso? Foi então que a Dra. Fernanda a encaminhou para uma consulta com um especialista em quadril, Dr. Gustavo**. Ele não queria saber de exames, quis saber dela. A fez andar pelo consultório, examinou, conversou. Encontrou. Ela teria que fazer um exame para ter certeza. E, com a confirmação, veio a indicação do Dr. Vassalo*** para a cirurgia – artroscopia de impacto femuro-acetabular. O problema era no quadril, mas era tão grave, e se passaram tantos anos, que o cérebro passou a mandar a dor para vários pontos do corpo, em busca de cura. Lembro que, na fila da primeira consulta com o cirurgião, ela tinha em mãos uma lista com os nomes dos 23 médicos que a tiveram em seus consultórios nestes dezessete anos. Os nomes dos médicos, as cidades, os diagnósticos. Lembro bem de rirmos do diagnóstico da Dra. Fernanda: só Deus sabe. Era isso. Por dezessete anos, só Deus soube. Mas, finalmente, os médicos pareciam também entender. A cirurgia foi marcada para o dia 23 de dezembro. Pra mim, pra ela, pra nossa família, pra amigos que a querem bem, foi um milagre de Natal. Um milagre. De acordo com o Dr. Vassalo – que, na primeira consulta, havia dito que era muito grande sua lesão – no momento da cirurgia descobriu ser dez vezes pior do que ele havia pensado. Disse ainda, quase um mês depois da cirurgia, que há anos não via uma lesão como aquela. Que não conseguia imaginar a dor que ela sentia, como ela aguentava. Ela, claro, chorona que é, deve ter molhado toda a sala dele. Como estou molhando agora meu teclado. Ela está curada. Foram dezessete anos de dor. Dezessete anos. Não era uma dor de batida do dedinho do pé numa quina, ou de um ralado no joelho. Era dor que a impedia de dormir deitada em sua cama, dor insuportável. Dor que, graças a Deus, à Dra. Fernanda, ao Dr. Gustavo e ao Dr. Vassalo, ficou pra trás. Não existe mais. Ela, na cadeira de rodas até que se recupere da cirurgia, me disse que, pudesse escolher, preferiria a vida naquela cadeira e sem a dor que sentia, do que viver sobre suas próprias pernas em companhia daquela dor. Eu acredito. Não era exagero. Veio do coração. Foi sincero. Eu acredito. E fico imensamente, indescritivelmente feliz, em saber que os dezessete anos ficaram para trás. Ela não tem mais dor. Minha mãe não tem dor. Cada vez que penso nisso me vem um sorriso de milagre. É um milagre. É medicina, mas é também um milagre. Porque eu cheguei a pensar, muito mais que uma ou duas vezes, que só mesmo um milagre faria diferente a situação. Este texto foi um jorro, um escape – bem maior do que eu imaginei que seria, confesso – meus dedos se mexendo a dizer um monte de coisas que eu fico dizendo a mim mesma, aqui dentro da minha cabeça. Foi um dizer a estas três pessoas, Dra. Fernanda, Dr. Gustavo e Dr. Vassalo, que vocês mudaram a vida da minha mãe, a minha vida, a vida do meu pai, dos meus irmãos, dos meus avós, dos meus tios, primos, e de tantas outras pessoas que gostam da minha mãe – e eu sei, são muitas, porque ela é mesmo incrível. Agradecer e dizer que nunca nos esqueceremos de vocês é pouco, tão pouco perto da mudança que causaram em nossas vidas... Mas é tudo o que eu posso fazer agora. Obrigada. Muito obrigada. Todos os dias quando acordarem, todas as noites quando forem dormir, lembrem-se, estarei eu lhes dizendo o mais profundo e sincero obrigada. Obrigada por salvarem a vida da minha mãe.

*Dra. Fernanda Leonel Nunes – Passos/MG
** Dr. Gustavo Sansoni Soares – Piumhi/ MG
*** Dr. Carlos Cesar Vassalo – Belo Horizonte/ MG

sexta-feira, 22 de março de 2013

Eu penso em você.

Que saudade de um monte de gente! Gente que eu conheci em diferentes lugares e em diferentes momentos da minha vida. Gente com quem convivi por décadas, ou poucos anos, ou meses, ou dias. Horas? Tem, também. Por mais que a gente não se encontre, por mais que a gente não se fale com frequência... penso sempre em vocês. Que saudade.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Pensamentos


Meus pensamentos surgem em linhas, separados por vírgulas e pontos. Às vezes o pensamento contínuo faz um capítulo inteiro. Às vezes, fica pela metade, atropelado por assuntos tão diferentes, que poderiam fazer parte do livro de pensamentos de outra pessoa. Meus pensamentos surgem em linhas, separados por vírgulas e pontos, criando e recriando, a todo momento, esse livro de grandes e pequenos contos no meio dos meus dias. Biografias, romance, aventura, ficção. Eu não só queria que meus olhos fossem câmeras fotográficas, registrando tudo que vejo. Eu queria que meu cérebro fosse ligado a uma impressora, pra que eu pudesse imprimir todos os textos que são meus pensamentos. Uma impressora pra poder compartilhar, guardar, reler todos os textos que ficam apenas ali, trancados dentro da minha cabeça.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Nasceu!

Há vinte e tantos anos, a gente levava as panelinhas pro alpendre e montava nossa casinha. Os meninos, que corriam na rua e nunca sonharam em fazer parte da nossa brincadeira, eram nossos maridos. As folhas dos pés de beijo faziam a comidinha, que a gente carinhosamente chamava de baba-de-vaca, pela textura gosmenta, depois de tanta mistura. E, claro, tínhamos nossos filhinhos. Na maior parte do tempo, só dormiam, ou ficavam no colo - ou a gente pegava os pobres pelos pés, de cabeça pra baixo - mas a gente se achava muito mãe. E agora, em dezembro de 2012, nós quase chegando nos 30, não tem panelinha no alpendre, os maridos são de verdade e não tem mais baba-de-vaca pro almoço. Mas tem o Lucas nos seus braços, amiga. Um filhinho de verdade! Você vai ser - já é, né? - uma mãe sensacional, não tenho dúvida. E eu gosto de pensar que todo aquele tempo que passamos brincando de casinha foi importante pra te preparar pra esse momento. Nasceu o Lucas. Nasceu uma mamãe dentro da minha amiga.

terça-feira, 20 de novembro de 2012

Prima-irmã

Meus pais me deram 2 irmãos - os melhores do mundo, aliás. E a vida me deu uma irmã. Temos os mesmos sobrenomes (os dois!), os mesmos avós (tanto por parte de pai quanto por parte de mãe - das duas!), os mesmos primos, os mesmos tios. Só nossos pais e irmãos não são os mesmos. Não crescemos na mesma casa, mas sempre juntas. Não moramos na mesma cidade, mas sempre juntas. Geralmente temos milhares de quilômetros entre nós, mas sempre juntas. Sermos primas-irmãs é muito mais do que pura nomenclatura. Amo quando, no meio de uma viagem, você se lembra de mim e me manda e-mail dizendo "você ia adorar" ou "precisamos vir aqui juntas". Adoro conhecer o mundo através dos seus olhos.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

E a vida?

Como a vida muda. E como mudam as pessoas. E os sonhos. Um dia você acorda e percebe que algo mudou dentro de você. E às vezes também do lado de fora. Muitas ou poucas, pequenas ou grandes, as transformações aconteceram. Elas surgiram aos poucos – ou será que de repente? – naqueles tantos dias que você passou em busca dos sonhos que nunca mudam, ao lado daqueles que você mais ama. Ou foram naqueles dias em que você estava cansado demais, ou com preguiça demais, ou ocupado demais pra buscar esses sonhos, ou mesmo pra lembrar que eles existiam? Talvez seja impossível determinar o exato momento em que elas surgiram. Mas foram esses os dias que trouxeram as mudanças. Foram esses dias que de alguma forma impactaram sua mente e seu coração e fizeram de você diferente. Que marcaram em sua personalidade novos traços, em sua mente novos pensamentos, em sua vida, novos caminhos e destinos. E foram também esses mesmos dias, pais de tantas mudanças, que mantiveram dentro de você aqueles sonhos que continuam iguais. Aqueles sonhos de coisas, pessoas e lugares que inundam seu coração. Aqueles que trazem sorrisos e lágrimas quando são mencionados. Aqueles que são enormes, mas que se ajeitam, se abraçam, se espremem e criam espaço para os novos. E como é sensacional a experiência do descobrimento. Algo que você antes não queria, ou pensava não querer, e que agora enfia o pé na porta e entra; entra em cada pensamento seu e toma conta de tudo. E você percebe que não é só mais uma ideia. Será que vai passar, como aqueles outros que vieram e ficaram por uns dias, como uma ideia fixa, quase uma obsessão, ou vai se aconchegar, criar raízes e te acompanhar pelo resto da vida, até mesmo depois de realizado, como aqueles outros? Dessa vez eu acho que fica. Esse eu acho que fica. Não é mais uma ideia. Já virou um sonho. Dos grandes. Pra sonhar junto. Como a vida muda. E como mudam as pessoas. E os sonhos. E como é maravilhoso olhar no espelho e reconhecer, naquele reflexo cheio de mudanças, os traços familiares de sempre. Aquele você de sempre.  Ah, como a vida muda. E como é maravilhoso que continue igual.